Pablo Kurlander Gestor Geral da FEBRACT da Entrevista para o OBID

Pablo Kurlander é psicólogo, mestre e doutor em Saúde Coletiva pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). É gestor geral da Federação Brasileira de Comunidades Terapêuticas (Febract),  membro da Junta Diretiva da Federação Latino-Americana de Comunidades Terapêuticas (FLACT), conselheiro da Federação Mundial de Comunidades Terapêuticas (WFTC) e vice-presidente do Conselho Estadual sobre Drogas de São Paulo (Coned-SP).

Quando surgiram as Comunidades Terapêuticas?
Na segunda metade do século XX, Maxwell Jones, psiquiatra do Reino Unido, cria o modelo de Comunidade Terapêutica (CT) psiquiátrica destinado a atender soldados que voltavam da 2ª Guerra Mundial. Logo depois, Franco Basaglia, psiquiatra italiano, se propôs transformar o Hospital Psiquiátrico de Gorizia, do qual era diretor, numa CT no modelo de Maxwell Jones, e, assim, desenvolveu o modelo definitivo de Reforma Psiquiátrica, visando a humanizar o tratamento oferecido às pessoas com transtornos mentais. Nessa época, já estava consagrado o modelo de atenção para pessoas com problemas com álcool chamado Alcoólicos Anônimos (AA). Haviam surgido os primeiros modelos de atenção residencial, como Synnanon, que deriva do modelo Daytop, que o Padre Haroldo Rahm traz para o Brasil em 1978, na Fazenda do Senhor Jesus de Campinas (SP), a primeira CT do Brasil.

Como surgiram as Comunidades Terapêuticas?
As CTs se originaram de duas fontes: o modelo de Reforma Psiquiátrica europeu, proposto por Maxwell Jones e Basaglia, e o modelo de mútua ajuda provindo dos grupos de Alcoólicos Anônimos (AA). O encontro desses dois afluentes se dá na pessoa de David Deitch, fundador, junto a Monsenhor O’Brien, do consagrado método de CT Daytop Village. Deitch, que tinha sido membro de AA e também de Synnanon, após sair desta última se forma em Psicologia, se especializa na área da dependência química e vai trabalhar na prefeitura de Nova York junto ao psiquiatra porto-riquenho Efrén Ramirez, criador da primeira CT para dependentes químicos, a Ocean Park Ambulatory Therapeutic Community, fundada em 1961 em Rio Piedras, Porto Rico, com influência de Maxwell Jones. É com Ramirez que Deitch conhece a teoria e método de Maxwell Jones, e amalgama em Daytop Village o que conhecia do modelo de AA com toda a experiência da CT de Jones.

Qual o objetivo de uma Comunidade Terapêutica?
A CT é um serviço residencial transitório, de atendimento a dependentes químicos, de caráter exclusivamente voluntário, que oferece um ambiente protegido, técnica e eticamente orientado, cujo objetivo – muito mais ambicioso do que apenas a manutenção da abstinência – é a melhora geral na qualidade de vida, assim como a reinserção social do indivíduo. A CT oferece uma abordagem terapêutica guiada na perspectiva da recuperação da dependência química através do desenvolvimento de um novo estilo de vida, e o principal agente terapêutico é a comunidade por si mesma, ou seja, o ambiente social, a convivência entre os pares que, uma vez sendo modelos de sucesso na recuperação pessoal, servem de guias no processo dos outros. Assim, a CT é tanto o contexto em que ocorre a mudança quanto o método que facilita a mesma.

Historicamente, as Comunidades Terapêuticas foram pioneiras a acolher dependentes químicos?
No sentido de acolhimento em modelo residencial, sim. Até o surgimento destas, no modelo Daytop, a abordagem era unicamente de base médica. Junto com as CTs também houve vários grupos religiosos que se dedicaram a cuidar de dependentes químicos, como o consagrado Teen ChallengeUSA, do pastor David Wilkerson, que chega ao Brasil (Goiânia) em 1977, com o nome de Desafio Jovem. No Brasil, em 1968 já teria sido criado o Movimento Jovens Livres, também em Goiânia. Alguns desses movimentos, que inicialmente eram serviços assistenciais religiosos, foram se desenvolvendo ao longo do tempo, adquirindo características e adotando método de CT, porém, no Brasil, ainda há grande confusão entre o que é um serviço assistencial religioso e o que é uma CT de fato.

O que levou as Comunidades Terapêuticas a terem efetividade como espaço de acolhimento a dependentes químicos?
No Brasil, com a implantação da Reforma Psiquiátrica de maneira totalmente distorcida do modelo europeu, tanto as pessoas com transtornos mentais quanto os dependentes químicos ficaram com pouquíssimas possibilidades de atenção. Foi nesse momento que as CTs começaram a se multiplicar, para dar conta de atender essa população que não encontrava acolhida no sistema público. O problema foi que o crescimento indiscriminado e não regulamentado desses serviços contribuiu para que surgissem inúmeros locais que se autodenominaram CTs, mas que em nada se assemelhavam às verdadeiras CTs originais. Como surgiram no Brasil de uma base não-científica, a efetividade pode ser vista tanto pela grande aceitação da população quanto pela grande quantidade de pessoas que se beneficiaram desse tipo de serviço. A pesquisa científica deste modelo, no Brasil, ainda está no começo.

Quais foram seus objetos de pesquisa no mestrado e no doutorado?
Minha pesquisa de mestrado se focou no estudo dos fatores que contribuem com o abandono do tratamento na CT, visto que a desistência é um dos maiores problemas quando se trata de qualquer forma de tratamento para a dependência química. A partir desse estudo, desenvolvi um Programa de Prevenção ao Abandono do Tratamento, que está organizado num curso oferecido atualmente pela Federação Brasileira de Comunidades Terapêuticas (Febract). No doutorado dei continuidade a essa pesquisa, mas agora com foco na eficácia do tratamento. Acompanhei um grupo de 200 dependentes químicos em duas CTs (masculina e feminina) durante o processo e por 12 meses após o mesmo, a fim de avaliar o resultado final. Essa pesquisa é o primeiro estudo de eficácia do tratamento na CT do Brasil e da América Latina, porém, muitos outros estudos são necessários.

O que o motiva a trabalhar com este tema?
Eu me recuperei numa CT há 24 anos, a Fazenda do Senhor Jesus, de Viamão (RS), primeira CT do Rio Grande do Sul, fundada pelo Padre Haroldo. Desde então, me encantei com a vida dentro da CT, com as suas potencialidades, e senti que deveria continuar envolvido, tanto para minha própria melhora quanto para poder ajudar outras pessoas. Desde o início, compreendi que muita coisa precisava ser melhorada e mudada dentro daquele conceito antigo de CT, mas sempre acreditei no potencial terapêutico desse espaço. Por isso, luto e estudo pela melhoria da qualidade do trabalho dentro das CTs, pela sua regulamentação e efetiva fiscalização, já que considero que este é o único caminho para acabar com os maus serviços e falsas CTs que realizam todo tipo de abuso e violência, denigrem o conceito de CT e estigmatizam o dependente químico que precisa de ajuda.

Como o Obid pode ajudar em seu trabalho?
Como disse na questão anterior, regulamentar e fiscalizar as CTs contribuiria com a melhora da qualidade dos serviços. O Obid pode contribuir muito nesse processo, na disponibilização de informações atualizadas e validadas sobre o tema, no oferecimento de capacitações para profissionais das CTs e dos serviços relacionados, assim como também na capacitação dos profissionais que fariam as fiscalizações desses serviços. Outra forma importante é o cadastramento criterioso de verdadeiras CTs, e a disponibilização pública de uma relação de bons serviços, o que já está sendo feito para as CTs contratadas pela Secretaria Nacional de Cuidados de Prevenção às Drogas (Senapred). Isso poderia estar articulado com os Estados e municípios, para que somente locais que desenvolvam trabalho ético e técnico estejam relacionados e, assim, famílias e usuários possam acessar um serviço de qualidade.

Fonte: http://mds.gov.br/obid/entrevistas/pablo-kurlander