{"id":2665,"date":"2018-05-30T14:29:58","date_gmt":"2018-05-30T17:29:58","guid":{"rendered":"http:\/\/febract.org.br\/portal\/?p=2665"},"modified":"2018-05-30T14:29:58","modified_gmt":"2018-05-30T17:29:58","slug":"dependencia-quimica-moral-doenca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/febract.org.br\/portal\/2018\/05\/30\/dependencia-quimica-moral-doenca\/","title":{"rendered":"Depend\u00eancia Qu\u00edmica: Moral X Doen\u00e7a"},"content":{"rendered":"<div id=\"fb-root\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">O uso de bebidas alco\u00f3licas e outras subst\u00e2ncias psicoativas acompanha a humanidade desde os seus prim\u00f3rdios. Sua presen\u00e7a assumiu m\u00faltiplas formas e significados em diferentes sociedades e momentos da hist\u00f3ria. Entretanto no senso comum, o pensamento simplista e preconcebido que avalia a g\u00eanese e a manuten\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia qu\u00edmica como uma escolha pessoal, resiste atrav\u00e9s dos s\u00e9culos. Este Modelo Moral ainda vigente estigmatiza o dependente, retarda seu pedido de ajuda, interfere no seu processo de recupera\u00e7\u00e3o e por muitas vezes dificulta sua reinser\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Modelo de Doen\u00e7a para o campo do consumo de \u00e1lcool foi defendido desde o s\u00e9culo XIX por alguns autores. Essa proposta seria um caminho para o tratamento cientificamente embasado e fazia oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 estrutura de pensamento e valores imposta anos antes \u00e0 Europa pelo Cristianismo, que condenava e considerava pecado os comportamentos aberrantes e os excessos. Naturalmente, o h\u00e1bito da embriaguez e os problemas relacionados ao consumo de \u00e1lcool foram desaprovados por esta estrutura. De acordo com o clero at\u00e9 ent\u00e3o, o pecador teria o poder de se arrepender e, contando apenas com ora\u00e7\u00f5es e determina\u00e7\u00e3o poderia modificar seu comportamento, sem recorrer a um m\u00e9dico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir do s\u00e9culo XX, come\u00e7ou a ser definido o conceito de depend\u00eancia qu\u00edmica como uma doen\u00e7a causada por altera\u00e7\u00f5es no funcionamento do c\u00e9rebro. Nas d\u00e9cadas de 1970 e 1980, um psiquiatra brit\u00e2nico e sua equipe chegaram ao conceito que utilizamos hoje: existe uma s\u00edndrome de depend\u00eancia, baseada em sinais e sintomas, observados em n\u00edveis variados de gravidade em qualquer dependente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, alguns questionamentos importantes continuavam sem uma resposta definitiva: Por que indiv\u00edduos conseguem fazer o uso ocasional da subst\u00e2ncia, sem preju\u00edzo de seus compromissos e papeis sociais, ao passo que outros o fazem de maneira abusiva e desordenada? O que impede estes a parar de usar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A neurobiologia investiga e busca elucidar de que forma as altera\u00e7\u00f5es provocadas no c\u00e9rebro pela presen\u00e7a constante da droga se relacionam com estas quest\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estas altera\u00e7\u00f5es tornam a subst\u00e2ncia psicoativa (droga) cada vez mais importante para o indiv\u00edduo, uma vez que o equil\u00edbrio do seu organismo conta agora com a presen\u00e7a desta. Assim, quando seu uso cessar ou for reduzido, o indiv\u00edduo experimentar\u00e1 sintomas de grande desconforto (S\u00edndrome de abstin\u00eancia). A busca do prazer vai aos poucos sendo substitu\u00edda pela busca de al\u00edvio destes sintomas, enquanto doses maiores de subst\u00e2ncia s\u00e3o necess\u00e1rias para se alcan\u00e7ar os efeitos obtidos anteriormente com doses menores (Toler\u00e2ncia).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Importante ainda salientar o conceito de Compuls\u00e3o, um desejo incontrol\u00e1vel de consumir a subst\u00e2ncia. Nos primeiros tempos de qualquer tentativa de parar de usar, o indiv\u00edduo est\u00e1 tomado por automatismos que o conduzem o tempo todo de volta ao consumo, ao passo em que sua capacidade consciente de suprimir esses desejos est\u00e1 enfraquecida e ele est\u00e1 altamente vulner\u00e1vel frente a qualquer situa\u00e7\u00e3o que o remeta ao uso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitas vezes, o aspecto f\u00edsico e psiqui\u00e1trico do indiv\u00edduo parece inalterado, mas certamente, ele possui algum grau de comprometimento, ou seja, seu c\u00e9rebro sofrer\u00e1 todas estas e ainda outras mudan\u00e7as e adapta\u00e7\u00f5es. Isso aumenta a dificuldade para se atingir a abstin\u00eancia. Frequentemente, tais quadros s\u00e3o interpretados como de desinteresse, desonestidade, falta de car\u00e1ter ou m\u00e1 vontade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao inv\u00e9s disso, o indiv\u00edduo parece experimentar o que em filosofia pr\u00e1tica recebe o nome de \u201cAcrasia\u201d (do grego akrasia, &#8220;n\u00e3o ter comando sobre si mesmo&#8221;). Trata-se da a\u00e7\u00e3o de uma pessoa que contraria seu melhor ju\u00edzo sobre o que fazer em determinada situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A acrasia pode se dar porque o sujeito n\u00e3o fez um ju\u00edzo considerando todas as coisas, mas apenas um ju\u00edzo baseado em um conjunto menor de considera\u00e7\u00f5es &#8211; o al\u00edvio imediato do desconforto causado pela fissura, por exemplo. Pode ainda haver um conflito entre a raz\u00e3o e a emo\u00e7\u00e3o, e isso tornaria poss\u00edvel uma pessoa acreditar que \u00e9 melhor tomar esta do que aquela decis\u00e3o, mesmo preferindo a segunda op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quer seja considerando a base neurobiol\u00f3gica para a depend\u00eancia qu\u00edmica, quer seja considerando a interpreta\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, a quest\u00e3o moral ainda que presente em nosso dia a dia permanece distante da real discuss\u00e3o acerca dos desafios enfrentados pelos dependentes em busca de recupera\u00e7\u00e3o. Pode-se supor, por\u00e9m que a desinforma\u00e7\u00e3o s\u00f3 fortalece os estere\u00f3tipos e aumenta o preconceito sobre o tema.<\/p>\n<p><strong>Autor: Matheus Leite Pra\u00e7a &#8211; Psic\u00f3logo, Especialista em Depend\u00eancia Qu\u00edmica UNIAD\/UNIFESP &#8211; Em Recupera\u00e7\u00e3o de Longo Prazo<\/strong><\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.facesevozes.org.br\/index.php\/blog\/entry\/36-moral_doenca\">https:\/\/www.facesevozes.org.br\/index.php\/blog\/entry\/36-moral_doenca<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por que indiv\u00edduos conseguem fazer o uso ocasional da subst\u00e2ncia, sem preju\u00edzo de seus compromissos e papeis sociais, ao passo que outros o fazem de maneira abusiva e desordenada? 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